Pesquisadoras participam com filhos do Encontros Serrapilheira

Adriana Alves, pesquisadora da USP, e Serena. Foto: Diego Padilha

Clarice Cudischevitch

Dois participantes da segunda edição do Encontros Serrapilheira tiveram um destaque especial em meio aos pesquisadores: Serena, de 4 meses, e Kai, de 1 ano e meio, são filhos das grantees Adriana Alves e Marina Hirota, respectivamente, e vieram acompanhando as mães no treinamento em liderança científica e visualização de dados. O evento acontece de 10 a 14 de novembro, no Rio de Janeiro.

Para possibilitar a participação de pesquisadoras com filhos pequenos, em idade de amamentação, o Serrapilheira ofereceu um apoio extra, financiando a passagem e estadia das crianças e de um acompanhante. “Se não fosse o auxílio eu não teria vindo, porque a Serena está em amamentação exclusiva e não tenho como deixá-la com ninguém”, conta Adriana Alves, geóloga da Universidade de São Paulo (USP), que veio acompanhada de uma ajudante.

Alves se diz grata pela mudança de estigma que vem acontecendo na comunidade científica em relação à maternidade. “É preciso ter em mente que haverá mães cientistas e elas precisam continuar fazendo ciência, se assim desejarem. E há pontos positivos: desde que virei mãe, eu procrastino menos porque sei que o tempo para me dedicar à pesquisa é só aquele, então sou mais eficiente”, ri a geóloga, que tem, também, uma filha de 2 anos e meio.

Marina Hirota, matemática da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), também tinha a participação no Encontros Serrapilheira condicionada à ida do filho e de um acompanhante – ela foi com o marido. “Não apenas o Serrapilheira convidou os dois como também a Cristina [Caldas, diretora de Pesquisa Científica] ainda levou o Kai para dentro da reunião. É um privilégio que essas portas tenham sido abertas antes de mim e hoje eu consiga trabalhar tranquila, sem me sentir angustiada ou culpada.”

Marina Hirota, da UFSC, e Kai. Foto: Francisco Costa

Hirota afirma que levar os filhos para participar de eventos científicos deve ser uma escolha. “Há mulheres que não se sentem à vontade para isso e preferem separar trabalho da família, mas é preciso dar a chance dessa integração para quem quiser”, destaca a mãe de Kai, que significa “oceano” em havaiano e “mar” em japonês. Ela considera que essa responsabilidade não deve ser apenas dos organizadores, mas também das próprias pesquisadoras, que precisam ter a iniciativa de pedir esse tipo de apoio.

A diretora do Serrapilheira Cristina Caldas ressalta que o auxílio oferecido pelo Serrapilheira é uma forma de reconhecer que a maternidade afeta o tempo de dedicação à pesquisa. “Os gráficos mostram que a produtividade científica da mulher é um pouco maior que a dos homens até ter filhos; depois disso, esse número cai e nunca mais volta ao mesmo nível. Então, decidimos oferecer esse apoio para facilitar a participação em eventos de nossas grantees que têm filhos em idade de amamentação.”

Para Adriana Alves, iniciativas como essa podem ser precursoras de mudanças na comunidade científica brasileira, gerando discussões sobre gênero e maternidade na ciência. “Se a mulher optar por ter filho, não podem ser negados a ela outros aspectos da vida, e é isso que vinha sendo feito. Conheço mulheres que não tiveram filho pensando na carreira, e não porque não queriam de fato. Ser mãe não pode ser uma punição.”